Abordagem histórica das precauções padrão

Você conhece a história das precauções padrão? Elencamos alguns aspectos fundamentais da abordagem histórica. No período medieval, foram criados hospitais que tinham como principal objetivo alojar peregrinos, pobres, inválidos e doentes. Os cuidados eram exercidos por leigos e os doentes eram internados sem separação quanto à doença que apresentavam. Dessa forma, além da aglomeração indiscriminada de pessoas confinadas em um mesmo ambiente, verificava-se a precariedade das condições sanitárias, que incluía abastecimento de água que era de origem incerta, manejo inadequado de alimentos e camas compartilhadas por mais de dois pacientes (ARMOND; OLIVEIRA, 2005).

 

Antigamente as doenças eram atribuídas aos deuses, aos maus espíritos, a influência dos planetas e até mesmo ao sistema solar ou impurezas do ar, o conhecimento era restrito, e os seres humanos tinham uma vaga ideia de que poderiam adquirir doenças transmitidas por outras pessoas ou objetos. Nessa época, o doente era temido, e sua presença causava inquietação devido ao medo do perigo desconhecido.

 

Nas primeiras décadas do século XIV, os doentes eram impedidos de sair às ruas e tinham suas casas marcadas com sinais identificadores em suas portas. Verificava-se, dessa forma, a adoção de uma de uma política segregacionista, regulamentada pelos municípios, com intuito de evitar o contato dos doentes com a população. Entretanto, no século XV foram identificadas as formas de contágio de doenças (contágio direto, indireto e a distância) e foi descrita a epidemiologia das doenças epidêmicas da época (ARMOND; OLIVEIRA, 2005).

 

Considerando-se essas condições, a disseminação das doenças ocorria com facilidade devido à precariedade dos recursos humanos e da infraestrutura, bem como do desconhecimento dos micro-organismos e da susceptibilidade a desequilíbrios constantes da tríade epidemiológica: agente/hospedeiro e meio ambiente.

                                                                            

A partir do século XVII, com a transformação do hospital de um local de assistência aos pobres para uma instituição  de medicalização e cuidado, surgiram as primeiras práticas de controle de infecção. Tratavam-se apenas de práticas de controle do meio ambiente, relacionadas ao modelo de doença que predominava naquela época. A finalidade do hospital como um local de assistência aos doentes foi impulsionada pelo capitalismo industrial, diante da necessidade de redefinir a função dos hospitais, que eram de grande importância na recuperação da força de trabalho (LACERDA; ENGRY, 1997).

 

Apenas em 1863, na Inglaterra, a Enfermeira Florence Nightingale passou a valorizar as condições do paciente e do meio ambiente, descrevendo os cuidados e as estratégias relacionadas aos pacientes (individualização do cuidado) e ao meio (limpeza, aumento da distância entre leitos nas enfermarias). Tal iniciativa reduziu, de 42% para índices menores que 2% as taxas de mortalidade dos pacientes internados (NICHIATA; TAKAHASHI; CIOSAK, 2004).

 

Nessa mesma época, Florence Nightingale, por meio de observações de campo durante o atendimento aos feridos da Guerra da Crimeia, constatou que pacientes com doenças semelhantes melhoravam rapidamente se não fossem colocados no mesmo ambiente de outros portadores de doenças distintas (ARMOND; OLIVEIRA, 2005).

 

Assim, em 1877 foram publicadas nos Estados Unidos da América, as primeiras recomendações de isolamento – em forma de um manual que descrevia as recomendações de alojar os pacientes com doenças infecciosas separadamente daqueles não infectados.

 

Essa representou uma das iniciativas pioneiras no controle de infecções. Entretanto, a transmissão de infecção se manteve alta, pois não havia separação de pacientes infectados e poucos procedimentos assépticos era adotados (CDC, 1996).    Em 1910, as práticas de isolamento foram alteradas, com a introdução do sistema de pequenos ambientes denominados cubículos (ou pequenos cômodos), com várias camas.

 

Além disso, o uso de capote pelos profissionais, a lavagem das mãos com soluções antissépticas após o contato com os pacientes e a desinfecção de objetos contaminados ou utilizados também eram recomendados. Essas recomendações eram baseadas em conhecimentos racionais de higiene da época, cujo objetivo era o de prevenir a disseminação de micro-organismos patogênicos para outros pacientes e profissionais. Esse conjunto de medidas era denominado “barreira de enfermagem e sistema de cubículos” (CDC, 1996).     

 

Em 1970, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), publicou o manual detalhando a técnica de isolamento para ser empregada em hospitais. Esse manual foi revisado em 1975, ampliando sua utilização também para hospitais gerais e de pequeno porte ou com recursos limitados. O referido manual introduziu o conceito de isolamento estrito, respiratório, protetor, precauções entéricas, precauções com ferida e pele, precauções com drenagem de sangue. Dessa forma, as medidas a serem adotadas pelo profissional de saúde foram normatizadas, pois, havia um agrupamento das doenças em relação ao modo de transmissão (CDC, 1996).  

 

Por mais que as medidas fossem simples de serem seguidas, algumas vezes havia exagero na adoção das precauções, em função da diversidade dos modos de transmissão das doenças. Porém, apesar das medidas serem racionais, não possuíam eficácia comprovada, no entanto nessa época mostraram-se ineficientes (CDC, 1996).

 

No início da década de 1980, a infecção hospitalar passou a ser vista como endêmica, tendo como um dos seus agravantes o aumento dos micro-organismos resistentes aos antibióticos, os quais não eram contemplados nas categorias de isolamento existentes (CDC, 1996). 

 

Já em 1985, diante da epidemia de Aids, as práticas de isolamento nos EUA forma novamente alteradas, com a introdução de nova estratégia de precaução e isolamento e do conceito de precauções universais (PU). Essas visavam reduzir o risco de transmissão do agente infeccioso aos profissionais de saúde, principalmente os transmitidos pelo sangue (CDC, 1996).

 

Essas precauções incluíam o uso de barreiras (luvas, avental, óculos e máscara), lavagem das mãos imediatamente após a retirada das luvas, máscara e prevenção de acidentes de trabalho. A aplicação das precauções universais foi ampliada a todos os pacientes, independentemente de seu diagnóstico. No entanto, essas precauções não eram abrangentes, não consideravam alguns fluidos corporais como fezes, urina, secreções nasais, escarro, suor, lágrimas e vômitos, exceto quando apresentavam sangue visível.

 

Em 1987, o Departamento de Controle de Infecção do Centro Médico Harborview em Seattle, Washington, e da Universidade da Califórnia, em San Diego, estabeleceram um novo sistema de isolamento alternativo ao CDC, chamado de Isolamento de Substâncias Corporais (ISC). Esse evidenciava o isolamento de todos os fluidos corporais potencialmente infectados (sangue, fezes, urina, escarro, saliva, drenagem de ferida e outros fluidos corporais), por meio de uso de luva para lidar com todos os pacientes, independente do estado infeccioso (CDC, 1996).

 

Apenas em 1996 é que surgiu o termo ‘precauções padrão (PP)’,  ocasião em que foi construído um novo manual que sintetizava as proteções universais e o isolamento de substâncias corporais em um conjunto único de precauções a serem adotadas para prestar cuidados a todos os pacientes, visando à redução das infecções hospitalares, do risco de transmissão de micro-organismos resistentes e das doenças ocupacionais (ARMOND; OLIVEIRA, 2005).

 

REFERÊNCIAS

 

ARMOND, G. A.; OLIVEIRA, A. C. Infecções Hospitalares: Epidemiologia, Prevenção e Controle. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005, cap.1, parte IX, p. 457-470.

 

CDC, Center For Disease Control And Prevention. Part I. Evolution of Practices. Issue in healthcare settings. 1996. Disponível em: <www.cdc.gov>. Acesso em: 12 mai. 2011.

 

NICHIATA, L.Y. I. GIR, TAKAHASHI, A; CIOSAK, S. I. Evolução dos Isolamentos em doenças transmissíveis: os saberes para a prática contemporânea. Revista da Escola de Enfermagem da USP. São Paulo, v. 38, n. 1, p. 61-70, mar. 2004.

 

Texto escrito pela monitora Biana Domiciana Matucheski do Programa Proficiência - COFEN.

Comentário

Verifique o Nome *
Informe o Email*
Verifique o Código*   
Chronocomments
Enviar Comentário

Enquete

Como você ficou sabendo do Programa Proficiência?