Atuação do enfermeiro diante da morte encefálica

De acordo com alguns dicionários a palavra morte tem um significado simples e com poucas palavras: o fim da vida,. Mas para a sociedade não é tão fácil assim, principalmente quando se trata de um conhecido ou uma pessoa muito próxima. 

A maioria das pessoas entende a ausência de incursões ventilatórias ou de batimentos cardíacos, de forma cartesiana, como a iminência da morte. Porém, o que nos faz humanos é a atividade vigorosa e incessante de trilhões de neurônios localizados no encéfalo. Deste modo, morte encefálica (ME) é a parada total e irreversível das funções encefálicas. 

Como o cérebro é o órgão mais sensível à privação de oxigênio e de perfusão, a sua função pode ser irremediavelmente perdida, apesar da preservação de outras funções orgânicas. Devido a este fato é que a situação se torna mais difícil e incompreensível para os familiares do paciente, pois há morte encefálica - apesar de outros órgãos como coração, pulmões e rins continuarem em pleno funcionamento, por meio do suporte de drogas, ventilação mecânica e outros (MORATO, 2009).

Os autores complementam que é necessário que todo profissional de saúde esteja familiarizado com o conceito de morte encefálica, para que a aplicação da tecnologia na sustentação da vida seja benéfica, individual e socialmente comprometida, e não apenas promovedora de intervenção inadequada, extensão do sofrimento e angústia familiar e prolongamento inútil e artificial da vida.

Inicialmente, deve-se definir a causa do coma para levantar a hipótese de morte encefálica. As causas mais frequentes são o traumatismo crânio encefálico (TCE), no contexto de acidentes automobilísticos ou agressões; hemorragia subaracnóidea, ligada à ruptura de aneurisma; lesão difusa do cérebro após parada cardiorrespiratória revertida; entre outras causas. (ANDRÉ, apud GUETTI e MARQUES, 2008).

O diagnóstico de morte encefálica é estabelecido com base em critérios clínicos, porém sua confirmação exige a realização de exames complementares e o respeito a alguns pré-requisitos obrigatórios, que são: lesão encefálica de causa conhecida, irreversível e capaz de provocar o quadro, ausência de distúrbio hidroeletrolítico, acido básico ou endócrino grave, assim como de intoxicação exógena e hipotermia.

Para o diagnóstico, faz-se necessária a execução de dois exames clínicos, com intervalo de no mínimo seis horas entre eles, realizados por profissionais médicos diferentes e não vinculados à equipe de transplantes. É obrigatória a comprovação, por intermédio de exames complementares (arteriografia cerebral, Doppler, eletroencefalograma, gasometria venosa da jugular interna), de ausência de perfusão, atividade elétrica ou metabolismo cerebral.

Os exames clínicos feitos para detectar a ausência de reflexos do tronco cerebral, são: avaliação pupilar (devem estar fixas, sem resposta fotomotora), reflexo córneo palpebral, teste óculo cefálico (olhos de boneca), teste óculo-vestibular, reflexo traqueal (ausência de tosse, expectoração, vômito). E um dos últimos exames a serem feitos para diagnosticar a morte encefálica é o teste da apneia, onde esta é definida pela ausência de movimentos respiratórios espontâneos após estimulação máxima do centro respiratório por uma PaCO2 igual ou maior que 55 mmHg.

Ao ser estabelecido o diagnóstico de morte encefálica, tem início, imediatamente, o esclarecimento aos familiares sobre o que ela significa e a perspectiva de que é possível a doação humanitária de órgãos e tecidos (MORATO, 2009).

Uma das condutas do enfermeiro é a notificação do diagnóstico à central de transplante, obrigatória por lei, e nesse momento devem se iniciar também os exames de classificação do potencial doador (MORATO, 2009). 

Considerando que o processo de doação de órgãos e tecidos para transplante se inicia no hospital que notificou a morte encefálica, a Resolução Cofen nº 292/2004, diz que ao Enfermeiro incumbe planejar, executar, coordenar, supervisionar e avaliar os procedimentos de enfermagem prestados aos doador de órgãos e tecidos, através dos seguintes procedimentos:


a) Notificar as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos-CNNCDO, a existência de potencial doador;

b) Entrevistar o responsável legal do doador, solicitando o consentimento livre e esclarecido por meio de autorização da doação de órgãos e tecidos, por escrito;

c) Garantir ao responsável legal o direito de discutir com a família sobre a doação, prevalecendo o consenso familiar;

e) Aplicar a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) no processo de doação de órgãos e tecidos;

f) Documentar, registrar e arquivar o processo de doação/transplante no prontuário do doador, bem como, do receptor.


Dessa forma, profissional de enfermagem, precisamos conduzir nossas ações de acordo com o exposto por Guetti e Marques (2008), de que um único potencial doador, em boas condições, pode beneficiar, através de transplantes de diversos órgãos e tecidos, mais de 10 pacientes. Além disso, para que um potencial doador se torne um doador efetivo, e que o maior número de órgãos sejam aproveitados, é necessário uma adequada preservação e posterior viabilidade destes órgãos até a extração.

Nesse sentido, o apoio da equipe de enfermagem e a execução das atividades privativas do enfermeiro conduzirão a adoção de condutas clínicas adequadas ao potencial doador, com vistas ao cuidado dos receptores, ações estas movidas pela intenção em ajudar as pessoas que requerem transplantes de órgãos e tecidos a obterem qualidade de vida.


Texto escrito pelas monitoras do Programa Proficiência Eliane Andreatta e Jeniffer Botellho


REFERÊNCIAS

GUETTI N.R., MARQUES I.R. Assistência de enfermagem ao potencial doador de órgãos em morte encefálica. Rev Bras Enferm, Brasília 2008 jan-fev; 61(1): 91-7.

LAMB D., CURBELO J., DIAS R. C.. Ética, morte e morte encefálica ,tradução, atualização, adaptação, edição – São Paulo: Office Editora, 2001.

MORATO, E.G. Morte encefálica: conceitos essenciais, diagnóstico e atualização. Rev Med Minas Gerais 2009; 19(3): 227-236.

COFEN. Resolução 292/2004. Disponível em: http://site.portalcofen.gov.br/node/4328.  Acesso em 01/02/2012


Comentário

avatar Ednaldo
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Muito bom esse texto, estremamente esclarecedor.
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